
Olhe ao seu redor. Nós estamos em todo lugar. Observe as pessoas que cruzam seu caminho. Leia, se puder, o nome das ruas por onde passa. Veja nos portões de ferro das casas – os signos que dizem a quem sabe: “volte e pegue!”. Ouça essa música que toca ao longe e se espalha pelo mundo e leva os corpos a se entregarem ritmados à experiência pelos pés. Pois, como afirmou o pajé Barbosa: a gente não pode esquecer que negros e indígenas dançam a mesma pisada. Anunciamos a ruptura com a noção de invisibilidade na perspectiva do que não é visto, dada a expectativa do que se espera ver, como circunscrição colonial da visibilidade, para acolher o chamado do pajé para lidar com a dimensão sagrada do que não pode ser visto, mas nos guarda e protege.
Enxergar no escuro os caminhos para a ampliação de nossas percepções. Reafirmar a construção de espaços que sejam capazes de acolher nossa pluralidade, nossas lutas, nossas sensibilidades criativas, nossas culturas, nossas resistências. A nós que fazemos a Infinita, interessa encontrar meios de honrar a herança ancestral negra e indígena, não como um traço histórico do passado, mas como orientação dos antepassados para o futuro que estamos construindo. Afinal, reconhecemos que os cinemas negros e indígenas, instauram a partir de suas linguagens, práticas criativas, estéticas e estratégias discursivas, um regime de intersecção entre os tempos de resistência.
Nesta edição, nos propomos a pensar os cinemas negros e indígenas como manifestação de uma presença que se faz múltipla, variável e complexa. Que é capaz de reposicionar os ativos das lutas das que nos antecederam e gestar novos espaços para reterritorializar o cinema para além de seus códigos.
Ana Aline Furtado, coordenadora artística da quarta edição


